ESPAÇO DEDICADO AO FADO E AOS AMANTES DO FADO SÁBADOS E DOMINGOS ENTRE AS 9 E AS 10 HORAS NA SESIMBRA FM 103.9 APRESENTAÇÃO DE ALBERTO SILVA Pode ouvir através da Internet www.radios.pt

10/04/2010

HISTÓRIA DE VIDA

A QUINTA DO MEU ENCANTO

António Leiteiro – Ramalha - Almada


Como foi linda a minha infância tive uma família adorável, desde os meus avós, tios, tias, primos, primas, e irmãos (infelizmente perdi o António Carlos muito cedo, hoje só tenho a minha irmã Gisela e que Deus a conserve por muitos anos), passando pelos meus pais que foram dois seres encantadores que me deram tudo o que lhes era possível, quando os tempos eram muito difíceis.
Vivi a maior parte da minha infância sem luz eléctrica, agua canalizada e sem esgotos, mas isso não impediu que tivesse uma infância muito feliz, vivíamos numa casa térrea, situada numa quinta da Ramalha a Quinta do António Leiteiro, era composta de três divisões tinha um quarto, casa de jantar (onde eu dormia num divã, o colchão era feito com palha de milho) e uma cozinha, a casa de banho ficava da parte fora da casa era uma habitação modesta mas muito singela e muito limpa, havia amor.
Na envolvente da casa havia diversas árvores de fruto como figueiras, damasqueiros, ameixoeiras e uma vinha, com a chegada da primavera a paisagem tornava-se encantadora, composta ainda pelo o chilrear dos passarinhos. Dava um enorme prazer acordar pela manhã circundado por aquele ambiente, dava saúde e alegria. A água que havia era salobra dum poço que havia ao meio da courela, tanto servia para beber como para os usos domésticos, era límpida e muito fresca, mal se notava o sabor salobro que possuía, durante as tardes quentes não deixávamos de ir ao poço e beber um pouco de água e matar a sede.
Na quinta existiam diversas famílias, gente modesta mas amigos do seu amigo, sempre prontas para ajudar naquilo que fosse preciso, lembro o tio César, o Adelino, a Leonor, o tio Alberto (era agricultor e só possuía uma perna), o Carlos, o António (carpinteiro), o Jacinto, o Zé Maria (corticeiro mais tarde emigrou para a Alemanha, a Arlete, a Florinda, a Arminda, a Rita (vendia flores na praça de Almada), a Laura (irmã da Rita também vendia flores no mercado de Almada e outros que passaram por lá. A minha irmã Gisela nasceu neste lugar que nos apaixona.
Todos tinham a sua criação havia diversas capoeiras espalhadas pela quinta, uma avegaria onde havia diversas vacas leiteiras, que davam leite para vender por isso a Quinta do António Leiteiro, ainda conheci o Senhor António (vulgo António Leiteiro) era um homem baixo e de bom trato, vivia na primeira casa que havia na quinta, mais tarde ele divíduo a quinta em cinco courelas e deu-as aos filhos, à Rita (tinha dois filhos o Zeca e o Manecas que me ensinou a fazer estrelas de papel com as canas do valado), ao António (era o meu senhorio), á Laura, á Mabilde (mulher do Zé Sapateiro) e ao pai do Leonel e do Raul. Todos eles se dedicavam ao cultivo de flores para vender no mercado e nas lojas de flores. Por vezes quando as culturas não eram suficientes eles iam na carroça até Atalaia (Montijo) comprar flores para poderem servir os seus clientes. Naquele tempo aparecia de vez em quando o veterinário para ver como estavam os animais, era uma figura interessante vinha montado a cavalo e era assim que percorria as diversas quintas nas suas consultas, era um homem alto com barbas que lhe dava um ar misterioso, quando o víamos chegar e logo comentávamos uns para os outros (miúdos) que ali vinha o ZÉ DO TELHADO (foi um famoso ladrão para os lados do Marão, diziam que ele roubava aos ricos para dar aos pobres), nunca fixei o nome daquela figura imponente com ar enigmático, vivia para os lados de Alfarim zona de Sesimbra, percorria quilómetros e quilómetros a cavalo para desempenhar a sua tarefa de Veterinário.
No tempo em que o tempo não parecia correr os dias nunca mais terminavam eram dias felizes passados na quinta do meu encanto.
Os meus pais saíam cedo para o trabalho, depois de terem deixado o meu almoço preparado, ficava sozinho até chegar a hora de ir para a escola, quando me deitava na noite anterior já tinha programado qual era a minha actividade para essa manhã depois de fazer os deveres escolares. Por vezes combinava com um amigo uma ida aos pássaros, enchia os bolsos de pedras e colocava a fisga ao pescoço estava preparado para ir aos Piscos para os lados de Castro (onde existiam edificações da idade do ferro) onde o sogro (tio Delfim) do meu tio José Júlio (irmão da minha mãe, que foi guarda-redes dos azuis um clube que existiu antes de ter existido o Desportivo da Cova da Piedade que vendia hortaliças e legumes na praça da Piedade) tinha uma courela para os lados de Castro e uma quinta que se chamava a Carvoeira, junto da Azinhaga de Agua, esse lugar é hoje ocupado pela auto estrada que vem da ponte 25 de Abril em frente ao Fórum, antiga quinta do Dr. António Elvas. Havia muitos piscos que por ali saltitavam nos funchos bem verdinhos á beira da azinhaga, entretanto chegava a hora do almoço e hora de ir para a escola.
Havia outro dia que me dedicava a construção dum dos meus brinquedos, arranjava canas, passava pela avegaria da quinta e apanhava uns arames dos fardos de palha e começava a construir um carro que nós lhe chamávamos “carro de cana”. Tínhamos um martelo para endireitar o arame e um canivete para cortar as canas. Depois de ter todos os apetrechos junto de nós começava a construção, uma garrafa servia de molde para as rodas, primeiro construíamos a primeira roda depois passávamos o arame por dentro da cana que servia de eixo (75 cm de comprimento) para o carro e logo a seguir a outra roda, a primeira parte estava concluída tínhamos que fazer a zona do guiador. Era colocada uma cana mais comprida (2 m) que vinha ligar ao eixo através dum arame que vinha por dentro da cana e ai sai mais para fora para fazer de antena e ligava ao eixo (estávamos nos anos cinquenta do século passado), na outra extremidade da cana era criado o volante do carro e uns 10 cm mais abaixo era feita uma ranhura na cana para ser colocado um arame que fazia de mudanças, reparem na imaginação duma criança que tinha por volta dos sete ou oito anos, lembro-me que o primeiro brinquedo de compra que eu tive foi um carro vermelho em chapa, foi uma grande alegria possuir um carro igual ao do corredor inglês Stirling Moss um grande campeão de automobilismo daquela época.
Depois de estar concluído o nosso carro lá íamos dar uma volta pela quinta e mostrar aos meus amigos o meu novo carro. Quando chegava o verão e já estávamos em plenas férias grandes, era altura para cortar as searas ficava o restolho, era época de fazermos as estrelas de papel que fazíamos subir ao céu, mas para isso era preciso ter fio (cordel) de sapateiro e papel de seda que custava dinheiro, as canas era só ir ao valado e apanhá-las, escolhíamos as melhores e depois coloca-las a secar.
E o papel? E o fio? Isso é que era o pior. Todas as semanas a mãe ia fazer o avio á mercearia do Sr. Manuel (na Rua Cabo da Boa Esperança) ali se vendia quase tudo, uma quarta de manteiga, uma quarta de café, meio quilo de açúcar e não faltava o petróleo um bem essencial naquela época) logo me dispunha a ir ajudá-la a trazer as compras para casa assim tinha oportunidade de lhe pedir se me comprava duas folhas de papel de seda e um rolo de fio, ás vezes a muito custo lá vinha, eu ficava muito feliz. Semana sim, semana não, era contemplado com o material necessário para fazer o que mais gostava, e assim ia juntando fio e mais fio para poder levar mais alto as estrelas que ia fazendo, tinham sempre duas cores de papel ou bandeira nacional (verde e vermelho) ou as cores do Benfica (branco e vermelho), para o equilíbrio era preciso ter o rabo que eu fazia com os restos do papel que sobrava, mas o mais importante para que a estrela subisse eram as guias, tinha o seu segredo porque sem elas nada funcionava, era lindo ver o céu cheio de estrelas feitas pelos os miúdos das diversas courelas existentes. Mas ao fim do dia os meus pés estavam feridos de andar descalço por aquele restolho, a mãe não queria que eu andasse descalço porque eu sofria muito da garganta era uma flor de estufa, mas ao ir viver para a quinta e ao ver os outros só queria imitá-los e a partir daí deixei de ter problemas, mas só andava descalço ás escondidas.
Os anos foram passando fui crescendo comecei a estudar de noite e fui trabalhar, nesse tempo era muito difícil ter dois filhos a estudar de dia, tinha que entrar alguma coisinha para ajudar á vida.
Chegou altura de sair da Quinta a vida tinha dado mais uma volta, arranjei um emprego em que ganhava mais, era um trabalho de futuro, as condições na quinta já eram precárias eu era um homenzinho já precisava de alguma privacidade, a casa era muito pequena e continuávamos sem água e sem luz eléctrica.
E o dia chegou foi um dia muito triste para mim ao deixar a quinta do meu encanto, foi ali que cresci e me fiz homem, criei amigos, ia deixar muito de mim naquele espaço que eu tanto amei , mas a vida é feita de partidas e chegadas.
Sempre que podia ia visitar a Quinta do António Leiteiro, mas um dia e para meu desgosto que a quinta ia desaparecer tinha sido vendida para dar lugar a prédios, ao ver a casa onde fui muito feliz já em ruínas, chorei de saudades.
Hoje a muitos anos de distância ao relatar esta estória de vida foi como estivesse a voltar ao passado, foi um prazer reviver estes factos que tanto me preenche.

1 comentário:

Adilia Aires disse...

Palavras que me transportam ao passado. Restolho, courela,apetrechos, salobro, canivete.Eu " desterrada do idioma" ,desconheço o termo avergaria, que consultarei acto seguido. As estrelas fabricadas com papel de seda e cordel?" Cometas?" Quase dá vontade de contruir um carro de cana.Enfin vou buscar" avergaria,piscos e funchos." Obrigado por incitar-me a revisar o meu portuguêz.