ESPAÇO DEDICADO AO FADO E AOS AMANTES DO FADO SÁBADOS E DOMINGOS ENTRE AS 9 E AS 10 HORAS NA SESIMBRA FM 103.9 APRESENTAÇÃO DE ALBERTO SILVA Pode ouvir através da Internet www.radios.pt

08/04/2010

AS ESCOLAS POR ONDE PASSEI

COVA DA PIEDADE - ALMADA


Estávamos em 1955 chegou o dia 8 de Outubro, primeiro dia de aulas, para a maioria era a primeira vez, havia outros que eram repetentes, estávamos na primeira classe, íamos aprender a ler e a escrever, coisa que não tinha acontecido com muitas gerações anteriores á nossa, uns por necessidades das famílias, foram obrigados a ir trabalhar muito cedo para ajudarem em casa, outros não queriam aprender e fugiam da escola.
Nesse dia lá estávamos todos preparados para o arranque de uma nova vida, uns levavam batas brancas outros com a sua roupa normal acompanhados pelo tradicional caderno de duas linhas, uma ardósia, um lápis e uma borracha, material essencial para o arranque do ano lectivo.
Muitos daqueles meninos já os conhecíamos de vista mas não tínhamos muita aproximação, a partir daquele dia criámos fortes amizades, algumas chegaram até ao dia em que estou a escrever estas linhas.
Eram rapazes da Romeira, das Barrocas, da Praceta, do Brejo, do Chegadinho (Alagoa), do Bairro, da Ramalha, da Mutela, do Altinho e do centro da Cova da Piedade, eram lugares da freguesia (fundada em 7 de Fevereiro de 1928).
Antes da uma hora já estavam todos junto á escola á espera do professor neste caso foi uma professora a D.ILDA era uma senhora com cerca de 50 anos já tinha alguns cabelos grisalhos de estatura média um pouco para o forte e com uma voz muito suave logo nos cumprimentou e deu ordem para entrarmos para a sala de aula, a escola funcionava numa vivenda, era uma escola provisória (ESCOLA DO POSTO) e assim se manteve durante muitos anos até á sua extinção, por ali passaram centenas de rapazes que aprenderam a ler e a escrever, a escola ficava na actual Rua Pedro Matos Filipe junto da drogaria do Hermínio (o Hermínio era um homem alto e forte era do Pragal e falava muito alto), fazia esquina com a Av. da Fundação hoje o local está em degradação total.
Ainda não tínhamos os lugares marcados éramos cerca de trinta alunos sentámo-nos no lugar que estivesse vago e por ultimo entrou a Senhora Professora D. Ilda.
Deu-nos as boas-vindas e falou das normas que teríamos de respeitar durante o período das aulas, a forma como nos devíamos comportar ao entrar e á saída da escola assim como durante as aulas, este primeiro dia foi de apresentação ficamos a saber o nome de cada um dos companheiros. Lembro o João de Deus e o irmão que era deficiente e grande passarinheiro, o Canina, o Vítor Henriques, José Francisco, O Borrego, o Vítor (gordo) morava em frente á escola, o João (Soneca), o Morgado, o Câmara, o Funileiro, o Ferreira, o José Martins Vieira foi jogador do Desportivo e seu capitão e músico na SFUAP (mais tarde foi o 1º. Presidente da Câmara Municipal de Almada após o 25 de Abril de 1974), o Pereira, o Mário, o Alberto (Massaroca), o Diniz, o Zeca (Sardinha) (foi um óptimo cantor em diversos conjuntos musicais) ainda hoje canta, o Jorge Alberto Roseiro (Laica), o Campos e eu próprio (Alberto Jorge) e outros que não me vem á memoria. É mesmo curioso um Jorge Alberto e um Alberto Jorge na primeira classe, o destino estava marcado ao sermos companheiros de carteira com os nomes trocados, ainda hoje somos bons amigos.
Foram os primeiros passos na nossa aprendizagem e como eles foram importantes para a nossa formação. Até fazermos a 4ª Classe ainda passamos por outras escolas, algumas sem condições mas era o que havia naquele tempo, as escolas não eram mistas ou seja dum lado a escola das meninas do outro lado os rapazes, tivemos aulas na escola das meninas que ainda hoje existe na Av. da Fundação era a única classe de rapazes que havia naquela escola (tivemos só um ano por falta de salas), também frequentamos a escola das meninas que ainda existe no Bairro da Nossa Senhora da Piedade (Escola do Bairro) (por pouco tempo), estivemos na Escola do Gomes com o Prof. Leitão que era o director da escola e vivia no primeiro andar da mesma e por ultimo frequentamos a velhinha Escola do Brejo que hoje já não existe, era perto das bombas de gasolinas que hoje ali existem e do Estádio José Martins Vieira (Campo do Desportivo).
Lembro-me do velho pátio que servia de recreio á escola, a sala de aula ficava no primeiro andar (chovia lá dentro como na rua) tínhamos que subir uma enorme escadaria para entrar na escola, em tempo de chuva a azinhaga do Brejo enchia-se de água, ali perto ficava uma mercearia conhecida pelo Armazém, aí entroncava uma azinhaga que ia para o campo do Desportivo (Campo Silva Nunes) também ela ficava alagada com as chuvadas da época, os Invernos eram intensivos e muito prolongados, lembro que muitas vezes ajudamos a desentupir as saídas das águas e quando chegávamos á escola estávamos completamente encharcados logo a professora nos mandava para casa para mudarmos de roupa, nesse dia já não voltávamos á escola, tínhamos mais tempo para a brincadeira.
Depois chegou altura de fazermos o exame da 4ª. Classe fomos fazê-lo á Escola do Campo em Almada junto do Cemitério da Vila, ao completarmos a instrução primária fizemos a admissão á escola técnica, o exame foi na Escola António da Costa na Rua D. João I em Almada, já no Ciclo Preparatório e como as instalações eram pequenas fomos colocados na Escola Emídio Navarro (já tem mais de cinquenta anos) junto da antiga azinhaga de Mata Cães e perto dos Caranguejais um bairro de lata que ali existia (hoje existe a Escola António da Costa e o Teatro Municipal), nesse local havia um fabrico de cortiça do Jacinto do Carmo Marques que foi jogador do Liberdade-Mutela e do Benfica um dos vencedores da Taça Latina, frequentamos o ciclo preparatório nessa escola e continuamos na Emídio Navarro (O seu patrono foi Ministro das Obras Publicas, morreu em 1905) a frequentar o Curso Geral do Comercio já no período da noite porque era hora de começar a trabalhar.
Quero deixar uma homenagem muito sentida á Professora D.Ilda (infelizmente já desaparecida) que me ensinou a ler e a escrever assim como a muitas centenas de meninos como eu, onde ela estiver o meu reconhecido obrigado.
Hoje ao escrever sobre as minhas escolas, é importante dar a conhecer aos vindouros os locais das escolas que frequentamos e os amigos que criamos num tempo em que as dificuldades eram enormes.
Hoje, tudo é mais fácil, só quero dizer aos mais novos que aproveitem as óptimas condições que lhes são oferecidas e que gostem da vossa escola como eu gostei da minha.

Alberto Silva
8/04/2010

3 comentários:

Anónimo disse...

Amigo Alberto apesear das dificuldades eram crianças felizes, hoje têm tudo e a felicidade não é igual, eu também andava quilómetros para ir para a escola, hoje não podem dar um passo a pé e ainda refilam. Belos tempos que me fez recordar ao ler a sua historia. Obrigada por a partilhar connosco. bjs Maria de Lurdes

Alberto Silva disse...

Maria de Lurdes Brás, obrigado. É importante partilhar estas estórias de vida, para que mais tarde os vindores possam avaliar como foi dificil o nosso percurso.

Adilia Aires disse...

De acordo con anónimo. Nem um passo a pé, e depois a pagar un ginásio.Tenho muito em comum com Alberto. A escola para mim e para as crianças do meu povo foi uma aventura. Admirável memoria de nomes e lugares.
Até ao proximo relato.