ESPAÇO DEDICADO AO FADO E AOS AMANTES DO FADO SÁBADOS E DOMINGOS ENTRE AS 9 E AS 10 HORAS NA SESIMBRA FM 103.9 APRESENTAÇÃO DE ALBERTO SILVA Pode ouvir através da Internet www.radios.pt

26/03/2010

UMA HISTÓRIA DE VIDA " O MENINO Á LOJA"

O MENINO Á LOJA (O menino vai á loja)


Estávamos nos anos 20 do século passado nasceu na Cova da Piedade um menino que se chamava Alexandre, cresceu no seio duma família numerosa e com as dificuldades inerentes á época.
Uma terra de corticeiros, tanoeiros e agricultores que vivia a paredes-meias com a capital (Lisboa) separada pelo rio que dava trabalho a muita gente. O rio (Tejo) também dava o ganha-pão com as suas fragatas que desciam e subiam o rio num vai e vêm constante com as suas velas altaneiras que o vento levava e trazia, umas vezes levando farinha das moagens existentes na freguesia como carvão e outros produtos, era um meio de transporte importante na época, a pesca artesanal também contribuía para o sustento de muitas famílias daquele lugar.
A Cova da Piedade daquela época era lugar com poucos habitantes e toda a gente se conhecia, ali nasceu o Alexandre vulgo “O Menino Á Loja, cresceu com as dificuldades que todos os outros naquela época tiveram que enfrentar, era um miúdo irrequieto mas obediente, o pai mandava-o á loja e dizia-lhe:- “O menino vai á loja” e lá ia ele, fazer o recado, mas ao passar por algum vizinho e se lhe perguntavam onde ele ia, logo assim respondia: “Menino á loja” talvez por dificuldade de se expressar, e tantas vezes respondeu a essa pergunta que ficou o “O MEMINO À LOJA para a vida toda.
Cresceu foi á escola e chegou a hora de trabalhar e aprender um ofício, teve alguns empregos entre os quais o de caixeiro numa sapataria para os lados do Martim Moniz onde trabalhou muitos anos.
O tempo passava sem dar por isso, nesse período apaixonou-se pela filha do patrão, o Alexandre era uma pessoa muito considerada pelos donos da sapataria pela a sua dedicação ao trabalho, algo importante na época. O Alexandre vestia muito bem, com o seu fato sempre impecável, o Alexandre vivia com a mãe e os irmãos, ela tinha muito orgulho em que ele andasse sempre bem vestido.
Este romance de amor não correu bem para o Alexandre, não se chegou a casar com o amor da sua vida, saiu da sapataria com um enorme desgosto não aguentou a perca de um amor que tanto queria.
Sofreu uma grande desilusão de amor, deixou o seu emprego em Lisboa e voltou para a sua terra onde se dedicou á vida de engraxador, quis o destino que ficasse ligado á sua antiga profissão de caixeiro de sapataria dando brilho aos sapatos.
Criou o seu instrumento de trabalho e localizou-se no largo da sua terra, local de passagem por excelência, a sua caixa foi construída por si, era de madeira, toda ela forrada com taxas doiradas que lhe dava um ar artístico, dado o aspecto visual que apresentava. Aqui ninguém o conhecia por Alexandre só os mais íntimos porque todos os outros lhe chamavam por “O Menino á Loja”, tinha uma farta clientela, “Coroa ou Graxa”.
“O Menino á Loja” falava muito alto a sua voz era ouvida a metros de distância, era uma pessoa que conhecia toda a gente e sabia a vida de todos. Para cada cliente havia um assunto para discutir, caso o cliente lhe desse troco, mas mesmo assim ele falava, de bola, politica e todos os assuntos que tivessem actualidade. Tudo o que acontecia na terra ele sabia, as vidas de cada um, eram retratadas por ele, falava como tivesse conhecimento profundo das situações.
Nas suas discussões a cessas acerca do futebol chegava a discutir as tácticas demonstrando com as suas latas da graxa e as suas escovas como se deviam posicionar os jogadores perante determinada jogada, era um adepto fervoroso do seu Desportivo (Clube Desportivo da Cova da Piedade), discutia com todo o empenho o que se passava com o seu clube do coração.
Trabalhava todos os dias em frente á DESPORTIVA, onde tomava o seu café, onde encontrava o Pedro (que era o dono do café), o Pascoal, o Zé Gato e outros, aos domingos terminava o seu trabalho por volta da hora do almoço, regressava a casa para almoçar com a sua mãe, por volta das três horas já aparecia vestido de fato para ir dar o seu passeio habitual até Lisboa, apanhava a camioneta até Cacilhas e o velho cacilheiro que o levava á grande cidade, o seu destino era um bailarico, frequentava o Clube dos Caminhos de Ferro, o Salão Espanhol e os Alunos Apolo entre outros, dançava muito bem e aí fazia as suas conquistas, mas continuava solteiro, ninguém dizia que o Alexandre “O Menino á Loja” era engraxador.
O tempo não para os anos foram passando e chegou altura em que perdeu a sua mãe, outro grande desgosto para “o Menino á Loja”, não se conformava com esta grande perca, ia chorar convulsivamente para a campa de sua mãe, falando alto como estivesse a falar com ela, fazendo queixas de tudo e de todos.
A partir daí a sua vida degradou-se e perdeu-se, deixou de ser uma pessoa sociável para ser uma pessoa agressiva e por vezes malcriada, a doença que o atingiu ainda lhe criou mais problemas, tinha muitas dificuldades de locomoção.
E o seu dia chegou O Menino á Loja partiu, mas deixou para os vindouros uma história de vida que foi sem dúvida a vida do nosso amigo Alexandre e também não deixou de ser uma figura pública da sua terra.
Alberto Silva
26/3/2010

2 comentários:

Mano Belmonte disse...

Amigo Alberto
Uma história de vida verdadeira e comovente.
Sabemos de muitas outras...dezenas...centenas...milhares!? é preciso dar a conhecer, torná-las públicas, como o nosso amigo fez. Talvez, nos tornemos menos egoistas num mundo egoista que vivemos...ou vegetamos!?
Obrigado por esta lição de humanismo.
Abraço amigo
Mano Belmonte

Adilia Aires disse...

Uma historia que pode parecer banal, mas "cerro os olhos e vejo perfeitamente o Alexandre, abandonando aquel emprego, talvez humilhado pela sua condição de empregado da rapariga que amava", reconstruindo e dando sentido a sua vida com asuntos de ambito social. A mãe era o eije que o mantinha em equilibrio, e por isso após a sua morte, começou o declive da vida de Alexandre. Todas as vidas, teem a sua historia.
Ojalá todos tivessemos un amigo para evocar-la.